
É efêmero e único, sinto-o desde agora. Remôo hóstias e sacrilégios que criei e criamos. Eu e você, meu caro símbolo de amor.
Quando jovens criamos composições em nossa partitura e sinto que minha partitura, parte, quem asbe até o refrão porque eu sou fã de ronquenrou, foi por ti escrita.
A astrologia nos diz que vivemos o eterno retorno não de momento, mas de circunstâncias. Cada uma delas sofre por ruídos diferentes de acordo com os astros. Você é meu refrão porque quero que você se repita.
Por dias e dias esperei o aclamado dia 20, dias criados por longas conversas e devaneios, filmes e múicas deram o tom, livros e poemas o espírito, setes e bolos o gosto, festas e carnavais o tempero.
O dia 20 era pra ser antes do carnaval, era pra ser depois do carnaval, era pra ser seu ontem.
Todas as vésperas olhei para ti por acasos infinitos. Quando criança carreguei por estima e laço indecifrável dois livros de uma coleção de centenas que me antecedeu em vida. Os Prazeres e os Dias (Marcel Proust) e A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera). Não li o segundo, mas aonde ia os carregava.
Quando mais velho fui à universidade e, não podia ser diferente, levei-os comigo. Em pouco tempo emprestei o Proust e perdi o Kundera.
Quando pequeno meu bolo favorito era floresta negra e ontem, vivia dentro de todo o peso da insustentável leveza.
Os olhares que lhe encontrei satisfizeram minha vontade e ansiedade do dia 20, dia que sigo orgulhoso de volta à minha terra natal. Renasci por lá.
Lá sou filho de mim mesmo, neto de meu pai e irmão de meu avô. Lá sou filho único cujo primo é meu amigo e meus amigos são meus irmãos. Lá não tenho limites, o mesmo que aqui, mas lá eu sei onde estou.
Meu símbolo de amor sonhado surgiu de um encontro meu com você, mas só eu estive presente no primeiro. Gritei, urrei, cantei e compus para que finalmente aparecesses, me esperasses, me procurasses e me encontrasses.
O eterno retorno, o refrão de meu ronquenrou, seria a parte mais bela e doce, leve ou pesada, feia ou bela de toda essa ópera que se iniciou com um vôo num cobertor.
Desde que lhe vi sinto que falta metade, interrogo-me se me preparei para encher tua metade ou a minha. Sinto que sou metade de luz ou a a falta dela; mas sua luz, mesmo longe, não chega antes de ti, só no dia 20 que chegariam juntas.
O dia 20 seria o dia em que me olharias estatecida e eu estenderia minha mão, encontraria a sua e, de braços estendidos, rodaria seu mundo do meu jeito e com a nossa velocidade, olharia você de baixo para cima; começaria vendo teus passos de dança, a sua força de vida, seu rebolado, teu ventre de vida, sua feminilidade, teu pescoço de carícia, minha passagem para o êxtase e seu olhos: aonde eu me veria neles.
Se ver nos olhos de alguém é ter certeza de que se é visto, percebido e extasiado.
Olharias para mim depois e dirias: “Você realmente é louco, mas não como disse…” e eu: “Conhecer, desejar, tocar, beijar, lembrar…”, cada uma delas vinte vezes.
O tempo por mais longo que fosse não seria suficiente; assim, um mero minuto seria suficiente; o mínimo seria um relance.
Agora me perco em horas de sobra e sem nenhum em si completo, apenas metade. Não me entristeço pois, o eterno retorno nos colocará próximos novamente e dessa vez, lhe pego pela cintura sem nenhum talvez, com um beijo, uma carícia e um até logo, afinal, sou vingativo!
Parti sabendo que sou metade e conhecendo o que me falta. Não duvide porque nem eu sei como essa certeza é minha. Só não esqueça do que já compusemos, a imortalidade vai além da vida eterna, perpassa a existência do subjetivo e interfere no real. Não se preocupe se nossa canção é bela ou feia, pois a beleza é o prosaísmo da medida exata enquanto a feiura é a poesia do acaso. Não se preocupe se é curta ou longa, o tempo é um valor. Não se preocupe com a idade e poeira, adoro de vinhos tintos. Só lembre de que tem de ser doce e não se preocupe se foi espisódio ou história; ainda somos jovens.
Parto feliz por reencontrar o Kundera e o conheci por você, e o adoro. Parto com ele em baixo do braço e sabendo que, quando criança, se carregava-o pra cima e pra baixo, se nasci com ele sempre por perto, era porque ele me levaria até você. Se o perdi, você apareceu em alma pra me devolvê-lo e me dizendo: agora não, agora partimos pra imortalidade.
yan . 19.02.08






